Era a hora do
estudo da tarde, e Lèlito pensava.
As Catilinárias abertas na carteira, o
dicionário à direita, o caderno de significados à esquerda e o lápis à mão –
pareciam demonstrar que Lèlito preparava a sua lição de latim. Mas Lèlito não
pensava nas Catilinárias. Na
realidade, nem pensava. Melhor fora dizer que vogava ao sabor de um vago
devaneio melancólico, através do qual a saudade de casa transparecia num
persistente vaivém de recordações, aliada a uma como viscosa, angustiosa,
obscura sensação de pavor. Tal pavor, ainda Lèlito fugia de o confessar a si
próprio; mas há três dias que o perseguia; e há seis que Lèlito chegara. Há
seis que neste mesmo salão fingia, a esta mesma hora, preparar as lições o dia
seguinte.
Era um bom salão
comprido, largo, com janelas subindo de um e outro lado quase até ao tecto.
Pelas janelas da direita, viam.se as tílias do recreio dos maiores. Lèlito pertencia aos maiores.
Pelas da esquerda, o alto muro da cerca e uns longes da cidade. Ao fundo, sobre
um estrado, a mesa do prefeito. E na parede, em frente das várias filas de
carteiras, havia um mapa de Portugal, um retrato do Dr. Santos Paiva, fundador
do colégio, e dois caixilhos rectangulares com dizeres.
Um dizia: Mandar é suportar o peso das
responsabilidades. Menos custa obedecer.
E o outro: Se não trabalhares com alegria, não acuses
ninguém de o trabalho te ser penoso.
Desde a primeira
tarde que estes letreiros se tinham tornado quase odiosos a Lèlito; nem ele
sabia bem porquê.
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