quarta-feira, 23 de março de 2016

Uma Gota de Sangue (Romance)

Era a hora do estudo da tarde, e Lèlito pensava.
As Catilinárias abertas na carteira, o dicionário à direita, o caderno de significados à esquerda e o lápis à mão – pareciam demonstrar que Lèlito preparava a sua lição de latim. Mas Lèlito não pensava nas Catilinárias. Na realidade, nem pensava. Melhor fora dizer que vogava ao sabor de um vago devaneio melancólico, através do qual a saudade de casa transparecia num persistente vaivém de recordações, aliada a uma como viscosa, angustiosa, obscura sensação de pavor. Tal pavor, ainda Lèlito fugia de o confessar a si próprio; mas há três dias que o perseguia; e há seis que Lèlito chegara. Há seis que neste mesmo salão fingia, a esta mesma hora, preparar as lições o dia seguinte.
Era um bom salão comprido, largo, com janelas subindo de um e outro lado quase até ao tecto. Pelas janelas da direita, viam.se as tílias do recreio dos maiores. Lèlito pertencia aos maiores. Pelas da esquerda, o alto muro da cerca e uns longes da cidade. Ao fundo, sobre um estrado, a mesa do prefeito. E na parede, em frente das várias filas de carteiras, havia um mapa de Portugal, um retrato do Dr. Santos Paiva, fundador do colégio, e dois caixilhos rectangulares com dizeres.
Um dizia: Mandar é suportar o peso das responsabilidades. Menos custa obedecer.
E o outro: Se não trabalhares com alegria, não acuses ninguém de o trabalho te ser penoso.

Desde a primeira tarde que estes letreiros se tinham tornado quase odiosos a Lèlito; nem ele sabia bem porquê.

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