terça-feira, 29 de março de 2016

Três Peças em um ato

MEFISTÓFELES
Já não sei bem. A noite estava linda, com efeito. Despedi o táxi. Vagueei um pouco pela velha Mouradia… E na verdade: julgo lembrar-me de ter ouvido passos atrás dos meus, durante algum tempo.
PIERROT
Com desespero e raiva:
Mentira! Mentes!
MEFISTÓFELES
Não dês outra fífia, Pierrot. Por que há-de ser mentira? Como queres tu que eu adivinhe…?
PIERROT
Esconde a cara nas mãos, baloiça-se inesperadamente, grita no mesmo tom meio dramático meio humorístico:
Aqui del-rei!... aqui del-rei!... aqui del-rei!...
COLUMBINA
Um pouco mais baixo:
Pierrot…, quisera poder ser tua amante esta noite.
PIERROT
Caindo novamente aos pés de Columbina:
Não digas isso, Columbina! Minha Columbina! Deixa-me beijar-te o vestido. Esta noite…, pois talvez me suicide esta noite! (Desata em soluços, deita a cabeça nos joelhos de Columbina. Mas, por entre os soluços, grita no seu falsete de ventríloquo, meio humorístico meio dramático:)
Não quero! Não posso! Não devo tornar a mangas de alpaca…
MEFISTÓFELES
Levantando-se com enfado e um suspiro de tédio:
Uf!... não tolero homens que choram. Gostas do género, Columbina?
COLUMBINA
Cala-te.
PIERROT
Ergue-se devagar, fica diante de Mefistófeles. Silêncio breve.
Continuo a ser bom ator?
MEFISTÓFELES
Nem bom nem mau. Acredito na realidade do que disseste. Não posso deixar de ter certa curiosidade por ti… que se paga com desprezo. Desculpa! Eu não procuro conquistar as mulheres sendo mulher. Nem choro.
COLUMBINA
Como as conquistas? Mas suponho. Conquista-me…, se és capaz.
MEFISTÓFELES
Perdoa, Columbina. Desinteressei-me da tua conquista.
COLUMBINA
É assim…, mostrando-te petulante e grosseiro…?
MEFISTÓFELES
dobrando-se para ela:

Compreendes perfeitamente… não é verdade?, que as minhas palavras não passam de um meio de começar.

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