«Vila do Conde…,
o mar!...» pensou ele a meia voz, como falando a outrem. Quantas recordações!
Por uns momentos, a sua obra vaga, deformada, ficou imóvel no chão que o luar
ténue clareava. Decerto, vira muito mar. Mas este era o mar da sua infância, da
sua adolescência, da sua primeira mocidade. Há anos que não ouvia aquele seu
bramido soturno e longo, aproximando-se e logo recuando para insondáveis
distâncias, misterioso como uma voz da natureza e da noite.
De novo os seus
passos ressoavam no caminho deserto. Dum e doutro lado, os valados sucediam-se,
desenrolavam-se os campos, a massa negra dos pinheirais longe, à esquerda,
ondulava como acompanhando-o. De quando em quando, os valados baixavam ao nível
da estrada. O espaço abria-se à volta. E ouvia-se então mais cheio, ecoando no
céu como uma abóbada, o bramar das ondas nas praias da Vila do Conde e Mindelo.
Depois erguiam-se outros valos, ou corria um lanço de muro tosco; e João quase
não ouvia senão, outra vez, o toar surdo dos seus próprios passos.
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