sexta-feira, 25 de março de 2016

As Raízes do Futuro (Romance)

«Vila do Conde…, o mar!...» pensou ele a meia voz, como falando a outrem. Quantas recordações! Por uns momentos, a sua obra vaga, deformada, ficou imóvel no chão que o luar ténue clareava. Decerto, vira muito mar. Mas este era o mar da sua infância, da sua adolescência, da sua primeira mocidade. Há anos que não ouvia aquele seu bramido soturno e longo, aproximando-se e logo recuando para insondáveis distâncias, misterioso como uma voz da natureza e da noite.

De novo os seus passos ressoavam no caminho deserto. Dum e doutro lado, os valados sucediam-se, desenrolavam-se os campos, a massa negra dos pinheirais longe, à esquerda, ondulava como acompanhando-o. De quando em quando, os valados baixavam ao nível da estrada. O espaço abria-se à volta. E ouvia-se então mais cheio, ecoando no céu como uma abóbada, o bramar das ondas nas praias da Vila do Conde e Mindelo. Depois erguiam-se outros valos, ou corria um lanço de muro tosco; e João quase não ouvia senão, outra vez, o toar surdo dos seus próprios passos.

Sem comentários:

Enviar um comentário