Era uma vez, no
reino de Tranlândia, um casal que não tinha filhos. Grande mágoa, suponho, deve
ser não ter filhos um casal que se entende bem. E assim era esse casal. Eis
porque o marido começara de precocemente encanecer, entretendo os ócios com
aprender jogos chineses, coleccionar pássaros e armas brancas, estudar
dialectos ou outras futilidades idênticas; e a mulher se tornava rabugenta,
caprichosa, avarente, fanática, (tendo sido a própria imagem da alegria!) como
se não houvera casado, e antes do tempo envelhecera de inutilidade e amargor.
Esse casal que se adorava – principiara, até, a não poder tolerar-se: Como
quase todos os infelizes ligados por uma desgraça comum e odiada, cada um via
no outro o espelho do seu infortúnio. Acrescentamos que, no presente caso, cada
um tendia a ver no outro o próprio causador desse infortúnio. Este mútuo
ressentimento ia a pontos de já nem poder o triste casal esconde-lo da corte.
Pois não me ia
esquecendo um pormenor importante? Ela era o próprio rei, ela a própria rainha
de Traslândia: A ausência de filho nesse matrimónio representava uma desgraça
pública. Assim a mágoa dos dois míseros esposos se acrescentava da inquietação
dos reinantes. A cupidez dos povos vizinhos espreitava o seu trono sem
herdeiros. Tanto mais sendo alguns desses povos governados por parentes seus
que, embora vagos, se supunham com direitos ao trono. Quanto aos governantes
nem de longe seus parentes – desde já forjavam teorias, invocavam necessidades,
aventavam doutrinas, alegavam conveniências, chegavam a idear questões de ordem
metafísica ou religiosa que lhes permitissem, mortos os pobres reis estéreis,
cair sobre o reino sem leme. Quem não sabe como sempre se arreare de razoes a
ambição e a violência?
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