terça-feira, 22 de março de 2016

O Príncipe com Orelhas de Burro (Romance)

Era uma vez, no reino de Tranlândia, um casal que não tinha filhos. Grande mágoa, suponho, deve ser não ter filhos um casal que se entende bem. E assim era esse casal. Eis porque o marido começara de precocemente encanecer, entretendo os ócios com aprender jogos chineses, coleccionar pássaros e armas brancas, estudar dialectos ou outras futilidades idênticas; e a mulher se tornava rabugenta, caprichosa, avarente, fanática, (tendo sido a própria imagem da alegria!) como se não houvera casado, e antes do tempo envelhecera de inutilidade e amargor. Esse casal que se adorava – principiara, até, a não poder tolerar-se: Como quase todos os infelizes ligados por uma desgraça comum e odiada, cada um via no outro o espelho do seu infortúnio. Acrescentamos que, no presente caso, cada um tendia a ver no outro o próprio causador desse infortúnio. Este mútuo ressentimento ia a pontos de já nem poder o triste casal esconde-lo da corte.

Pois não me ia esquecendo um pormenor importante? Ela era o próprio rei, ela a própria rainha de Traslândia: A ausência de filho nesse matrimónio representava uma desgraça pública. Assim a mágoa dos dois míseros esposos se acrescentava da inquietação dos reinantes. A cupidez dos povos vizinhos espreitava o seu trono sem herdeiros. Tanto mais sendo alguns desses povos governados por parentes seus que, embora vagos, se supunham com direitos ao trono. Quanto aos governantes nem de longe seus parentes – desde já forjavam teorias, invocavam necessidades, aventavam doutrinas, alegavam conveniências, chegavam a idear questões de ordem metafísica ou religiosa que lhes permitissem, mortos os pobres reis estéreis, cair sobre o reino sem leme. Quem não sabe como sempre se arreare de razoes a ambição e a violência?

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