quarta-feira, 30 de março de 2016

EL-REI SEBASTIÃO

EL-REI
Dizem uns que me manda acometer: Acometa! Dizem outros que prenuncia desgraça e morte. É sempre assim… cada um só vê por um olho contrário ao do vizinho. Os semicegos nem quando acertam chegam a acertar! E também falam por ai de outras aparições, de vozes lastimosas que se ouvem…
PRIMEIRO FIDALGO
Também, senhor.
EL-REI
Pois é a tudo isso que eu obedeço! E já vos estou deixando, senhores.
SEGUNDO FIDALGO
Avançando um passo:
Se nos permitis, senhor, também vos queríamos falar daquele soldado que vós condenastes…
EL-REI
Aquele soldado…?
SEGUNDO SOLDADO
Que vós condenastes à pena máxima.
EL-REI
Já sei! Fez menção de levantar uma arma contra o seu superior.
PRIMEIRO FIDALGO
Foi apenas um gesto, senhor: um gesto irrefletido. Ele queria vir lançar-se aos pés de Vossa Alteza. O seu próprio superior está disposto a perdoar-lhe…
EL-REI
Não mandei que o enforcassem esta manhã?!
SEGUNDO FIDALGO
Ousamos esperar que um pouco de clemência de Vossa Alteza…
EL-REI
Enforquem-no! Mais do que nunca é preciso disciplina nos meus exércitos. As minhas ordens já deviam ter sido cumpridas! Enforquem-no! Ou quereis que vos mande enforcar a vós?! (os dois fidalgos endireitam-se, formalizados. Breve silêncio. El-Rei volta-se para o Moço de Câmara, fala noutro tom) Segue-me tu, que vais entrar ao meu serviço. E combaterás a meu lado! Serás o meu pajem do guião.
MOÇO DE CÂMARA
Beijo-vos as mãos, meu senhor.
El-Rei sai, seguido pelo moço. Ficam só em cena os dois fidalgos. Olham um para o outro, indignados e perplexos.
PRIMEIRO FIDALGO
Afinal…, por que não prendemos este louco?
SEGUNDO FIDALGO
Após uma breve pausa de silêncio:

Prendê-lo…, ao nosso rei?!

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