EL-REI
Dizem uns que me manda acometer: Acometa! Dizem outros que prenuncia
desgraça e morte. É sempre assim… cada um só vê por um olho contrário ao do
vizinho. Os semicegos nem quando acertam chegam a acertar! E também falam por
ai de outras aparições, de vozes lastimosas que se ouvem…
PRIMEIRO FIDALGO
Também, senhor.
EL-REI
Pois é a tudo isso que eu
obedeço! E já vos estou deixando, senhores.
SEGUNDO FIDALGO
Avançando um passo:
Se nos permitis, senhor, também vos queríamos falar daquele
soldado que vós condenastes…
EL-REI
Aquele soldado…?
SEGUNDO SOLDADO
Que vós condenastes à pena
máxima.
EL-REI
Já sei! Fez menção de levantar
uma arma contra o seu superior.
PRIMEIRO FIDALGO
Foi apenas um gesto, senhor: um
gesto irrefletido. Ele queria vir lançar-se aos pés de Vossa Alteza. O seu
próprio superior está disposto a perdoar-lhe…
EL-REI
Não mandei que o enforcassem esta
manhã?!
SEGUNDO FIDALGO
Ousamos esperar que um pouco de
clemência de Vossa Alteza…
EL-REI
Enforquem-no! Mais do que nunca é
preciso disciplina nos meus exércitos. As minhas ordens já deviam ter sido
cumpridas! Enforquem-no! Ou quereis que vos mande enforcar a vós?! (os dois fidalgos endireitam-se,
formalizados. Breve silêncio. El-Rei volta-se para o Moço de Câmara, fala
noutro tom) Segue-me tu, que vais entrar ao meu serviço. E combaterás a meu
lado! Serás o meu pajem do guião.
MOÇO DE CÂMARA
Beijo-vos as mãos, meu senhor.
El-Rei sai, seguido pelo moço. Ficam só em cena os dois fidalgos. Olham
um para o outro, indignados e perplexos.
PRIMEIRO FIDALGO
Afinal…, por que não prendemos
este louco?
SEGUNDO FIDALGO
Após uma breve pausa de silêncio:
Prendê-lo…, ao nosso rei?!
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