terça-feira, 5 de abril de 2016

COLHEITA DA TARDE

CANÇÃO DO REGRESSO

O Lar onde eu nasci
É próximo do Céu…
Menino, lá senti
Que o Fado me escolheu:
E assim como eu cresci,
Um sonho em mim cresceu.

“ Té que parti, cantando
Canções que emudeceram.
Regresso enfim, sangrando
Do mal que me fizeram.
E assim direi, chegando,
Às santas que me esperam:

- «No mundo, agora o sei,
«Tudo é Destino e Dor.
«Fui grande como um rei,
«Sou pobre e pecador.
«Dos lodos por que andei,
«Lavai-me um vosso amor!

«Quis ir a vencer moiros,
«Vi risos escarninhos;
«Contei ganhar tesoiros,
«Pedi pelos caminhos;
«Esperam-me de loiros,
«E coroam-me os espinhos!

«Que os sapos enlamearam
«Minh`alma onde era Dia!
«Que os corvos me bicaram
«Os olhos com que eu via!
«Que os lobos me arrastaram
«Do trilho que eu seguia!»

E logo as que me esperam
Dirão a uma só voz:
- «Os Anjos te trouxeram
«Ao lar de teus Avós;
«Que os golpes que te deram
«Tos sararemos nós.»

- «Meus golpes não são fáceis,
«Nem eu terei demora;
«Não vim por que os sarásseis,
«Nem tal me importa agora.
«Vim por que me ajudásseis:
«Chegou a minha Hora!»

E pálido – a sorrir
Com medo de chorar –
Eu me hei-de despedir;
E ali nesse lugar,
Minh´alma há-de partir,

Meu corpo há-de ficar…

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