Acorda de esse leito-sepultura
Em que te encerram viva,
Sombra cativa
Da Liberdade pura!
Os que amadores teus se
proclamaram,
Só lhes convém mas é que durmas…
Organizam turmas
No sepulcro lavrado em que te
encarceraram.
Quebra esses falsos mármores!
Afasta
Esses ridículos primores,
Esses hipócritas pudores
Sobre a tua nudez vibrante e
casta.
Vem ouvir, bem-amada,
Na noite cinza, os brados
Dos teus reais amantes, afogados
Num mar de agitação, rumor e
nada.
Sobre essas flores vis de
plástico
Das funerais grinaldas sob quais
Morres, irmã dos Imortais,
Rompa teu riso lírico e
sarcástico.
É tempo! Ressuscita
De esse ar de túmulo-salão-capela
E surge, ó sempre bela,
À Janela infinita.
As feras vão amar nas suas tocas,
Os astros cintilar em pleno
meio-dia,
- Virgem Mãe da Alegria e da
Melancolia,
Farol das tempestades que
provocas.
Tudo, se dormes, dorme, e é
cerração.
Tudo vai acordar – chorar e rir –
Desde que assomes para nos abrir
Teu imenso divino coração.
Acorda! Vê que sem
Tua Razão, tua Loucura,
De loucos ou sensatos somos nem
caricatura:
Nada, ninguém.
Tem dó de esta secura,
ressuscita.
Faz chover sobre nós os dons que
de ti chovem
Surgindo, ó sempre bela, ó sempre
casta, ó sempre jovem,
À Janela infinita.
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