sexta-feira, 1 de abril de 2016

CÂNTICO SUSPENSO

Acorda de esse leito-sepultura
Em que te encerram viva,
Sombra cativa
Da Liberdade pura!

Os que amadores teus se proclamaram,
Só lhes convém mas é que durmas…
Organizam turmas
No sepulcro lavrado em que te encarceraram.

Quebra esses falsos mármores! Afasta
Esses ridículos primores,
Esses hipócritas pudores
Sobre a tua nudez vibrante e casta.

Vem ouvir, bem-amada,
Na noite cinza, os brados
Dos teus reais amantes, afogados
Num mar de agitação, rumor e nada.

Sobre essas flores vis de plástico
Das funerais grinaldas sob quais
Morres, irmã dos Imortais,
Rompa teu riso lírico e sarcástico.

É tempo! Ressuscita
De esse ar de túmulo-salão-capela
E surge, ó sempre bela,
À Janela infinita.

As feras vão amar nas suas tocas,
Os astros cintilar em pleno meio-dia,
- Virgem Mãe da Alegria e da Melancolia,
Farol das tempestades que provocas.

Tudo, se dormes, dorme, e é cerração.
Tudo vai acordar – chorar e rir –
Desde que assomes para nos abrir
Teu imenso divino coração.

Acorda! Vê que sem
Tua Razão, tua Loucura,
De loucos ou sensatos somos nem caricatura:
Nada, ninguém.

Tem dó de esta secura, ressuscita.
Faz chover sobre nós os dons que de ti chovem
Surgindo, ó sempre bela, ó sempre casta, ó sempre jovem,

À Janela infinita.

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